19/08/2020

Precisou surgir uma pandemia para o hospital de Assu receber leitos de UTI

Inaugurado em 1999, portanto, há 21 anos, o Hospital Regional Nelson Inácio dos Santos, em Assu, continua sendo tratado como um instrumento de uso político. Situações no afã de alcançar resultados políticos por força da sua natureza, ou seja, uso deliberado do sistema de saúde, se sucedem desde o palavrório distribuído na noite de sua inauguração por Garibaldi Alves e Ronaldo Soares, as novas emoções ocorridas nesta terça-feira (18).

Se foi triste o dilema de conviver por mais de duas décadas com um hospital abarrotado de sequelas, mazelas e omissão dos governantes, não é menos punitiva a realidade em que estreia os leitos de UTI do Hospital de Assu, ou seja, sob o pesado clima de uma pandemia.

Mas, ainda assim há demagogos descendo ao mais profundo poço para agigantar a chegada dos leitos de UTI como luta política de A, B, C, D, E... etc, em vez de encarar a realidade das chuvas, raios e trovoadas do novo coronavírus.

A entrega das UTIs foi assegurada no Plano de Contingência de Enfrentamento à Covid-19, condição reforçada durante a solenidade desta terça-feira (18) pela secretária adjunta da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), Maura Sobreira, "O Plano de Contingência de Enfrentamento ao Coronavírus tem contemplado a assistência hospitalar em todo o RN. Com a abertura destes leitos, já prontos para entrar no sistema Regula RN, todas as regiões de saúde agora contam com leitos de UTI".

Quem ainda tem dúvidas de que a pandemia é o único ponto considerado na chegada dos leitos de UTI em Assu e continua defendendo seus “deuses” políticos, a assessoria do governo do Rio Grande do Norte também informa que a instalação de novos leitos só foi possível graças à reforma realizada no local, no valor de R$ 640 mil, financiada com recursos federais destinados aos gastos com saúde na pandemia. Já os 6 monitores e 10 respiradores usados nas UTIs foram doados pelo Projeto Todos Pela Saúde, do Itaú Unibanco para apoiar o combate ao novo coronavírus no Brasil.

Ficou explicitado ainda pela adjunta que de todas as regiões do RN, Assu foi contemplado na última etapa. Mas, verdadeiramente, isso não importa mais. Depois de 21 anos, só cabe-nos repetir o filho de Luiz Gonzaga, o inspirado Gonzaguinha, nos seus açoites a consciência das elites políticas ou não: “a gente não tem cara de babaca; a gente quer é ter pleno direito, a gente quer é ter muito respeito, a gente quer é ser um cidadão”.

Por Alderi Dantas, 19/08/2020 às 15:26 - Foto: facebook.com/FatimaBezerra13/ (reprodução)

14/08/2020

Covid-19: Governo do RN instala novos leitos em hospitais e prorroga retorno às aulas presenciais

A governadora Fátima Bezerra, nesta sexta-feira, 14, assegurou a instalação de novas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) nos Hospitais Regionais de Assu, Apodi, Currais Novos e Pau dos Ferros. A ampliação de leitos integra o Plano de Contingência de Enfrentamento à Covid-19.

Na próxima semana, entrarão em funcionamentos 10 UTIs no Hospital Regional de Assu. Em Currais Novos serão mais cinco UTIs, em Apodi mais duas UTIs e Pau dos Ferros mais cinco UTIs, que somadas às oito instaladas há cinco dias, em Currais Novos, totalizam 30. "Continuamos empenhados no trabalho de cuidar da assistência à saúde para o povo do Rio Grande do Norte. E este trabalho acontece de acordo com o Plano de Contingência de Enfrentamento à Covid-19 que vimos executando. Portanto, fechamos esta primeira quinzena de agosto com novos 30 leitos de UTI em todo o Estado", declarou Fátima Bezerra na entrevista coletiva para prestação de contas das ações da administração estadual no combate à pandemia e atualização dos dados epidemiológicos.

AULAS PRESENCIAIS

A governadora também reforçou o novo decreto, anunciado ontem, 13, que prorroga o reinício das aulas presenciais. "O adiamento desse reinício atende recomendações do Comitê Científico de assessoramento ao Governo. Mesmo registrando quadro de melhora na pandemia, com redução de mortes e casos confirmados, os especialistas entendem que as condições sanitárias existentes não são favoráveis ao retorno de aulas presenciais", argumentou.

O secretário de Estado da Educação, Getúlio Marques defende que a retomada das aulas presenciais precisa levar em conta os deslocamentos de alunos, pais e profissionais da educação e não apenas a preparação das escolas com a adoção das medidas protetivas.

Por Alderi Dantas, 14/08/2020 às 16:53

11/08/2020

Mortes pela Covid-19 poderiam ser evitadas, afirma pesquisadora da Fiocruz

Incansáveis e comprometidos com a defesa da vida, cientistas, pesquisadores e profissionais da saúde contestam a narrativa de “naturalização” das mortes pela covid-19, e destacam que ainda há tempo para que o Brasil impeça uma tragédia ainda maior na pandemia. Já são 101.752 vidas perdidas, conforme boletim desta segunda-feira (10) do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). E mais de 3 milhões de infectados.

Segundo a médica sanitarista Lúcia Souto, presidente do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (Cebes) e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), é “degradante” e “inadmissível” a situação do país hoje frente à covid-19."São mortes que poderiam ser evitadas. Isso é importante dizer, nós não precisamos continuar percorrendo esse caminho trágico que a sociedade brasileira está percorrendo”, diz a pesquisadora “em resposta à omissão” do governo de Jair Bolsonaro.

Confira a entrevista na íntegra a Marilu Cabañas, do Jornal Brasil Atual, AQUI.

Postado em 11/08/2020 às 15:23 - Foto: enterro no cemitério Vila Formosa, em São Paulo (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

10/08/2020

Brasil ultrapassa 100 mil mortes por Covid-19

O Brasil superou no sábado (8) a triste marca de 100 mil mortes pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde. O total de óbitos registrados foi de 100.240, com 2.988.796 casos de Covid-19.

A primeira vítima foi uma mulher de 57 anos, que morreu em São Paulo em 12 de março - a morte foi divulgada no dia 17 daquele mês. Desde então, foram menos de cinco meses até a marca de 100 mil mortes. A Covid-19 deixou mortos em 3.692 dos 5.570 municípios brasileiros, ou 66,2% do total.

O Brasil é o segundo país em todo o mundo a atingir esse indicador com o Covid-19: em maio, os Estados Unidos chegaram a mais de 100 mil mortos, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins. Hoje, são mais de 160 mil vítimas nos EUA. 

Os números que colocam o Brasil em destaque negativo já superam o total de mortos em eventos como a Gripe Espanhola e a Guerra do Paraguai. Em outro comparativo, é possível apontar que apenas 324 dos 5.570 municípios brasileiros tinham, em 2019, mais de 100 mil habitantes, segundo o IBGE.

Por Alderi Dantas, 10/08/2020 às 05:38

07/08/2020

Professores do Campus de Assu apresentam resultados de pesquisa sobre os “Efeitos da crise da covid-19 na fruticultura do Vale do Açu”

Os professores Joacir Rufino de Aquino (Economia) e Raimundo Inácio da Silva Filho (Geografia), do Campus de Assu, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), participaram da 5ª Reunião do Comitê Gestor do Território Açu-Mossoró 2, do Programa de Desenvolvimento Territorial, do Banco do Nordeste – PRODETER/BNB, realizada nesta quinta-feira (06), pela plataforma Google Meet.

Na ocasião, os professores apresentaram e discutiram sobre os "impactos da Covid-19 na fruticultura irrigada (banana e manga) do Vale do Açu”, estudo produzido a partir de um questionário aplicado durante o mês de julho/2020, contemplando 33 fruticultores que fazem parte do público do PRODETER, sendo entrevistados 14 produtores de manga e 19 produtores de banana.

Os efeitos da crise foram mais severos com o segmento da manga, que, segundo estimativas do estudo, teve uma queda de receita no primeiro semestre de 2020 de -41% em relação ao mesmo período do ano passado. Já no caso da banana, as perdas foram menores, mas, mesmo assim, significativas: -15%.

Segundos os professores Joacir Aquino e Raimundo Inácio, o Campus Avançado Prefeito Walter de Sá Leitão, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em Assu, integra o Comitê desde o seu lançamento (nov/2019) e, neste período, tem contribuído dentro da sua missão para o êxito das ações dentro da política de estudo e fortalecimento do desenvolvimento da região.

Por Alderi Dantas, 07/08/2020 às 23:09

05/08/2020

Natal registra trânsito intenso e ônibus lotados na volta para casa

O início da noite desta quarta-feira (5) foi de trânsito intenso para quem precisou se dirigir à zona Norte de Natal pela Ponte de Igapó. O engarrafamento se formou na Avenida Bernardo Vieira e no Complexo Viário da Urbana, seguindo pela Avenida Felizardo Moura. O registro feito pela reportagem da Inter TV Cabugi por volta das 19h coincide com o primeiro dia da última fase da reabertura gradual das atividades econômicas no Rio Grande do Norte.  

Durante quatro meses de pandemia do novo coronavírus, os congestionamentos praticamente não existiram nesta região.

Trabalhadores que dependem do transporte público tiveram que encarar ônibus lotados na volta para casa. A maioria usa máscara, mas é difícil manter o distanciamento devido à superlotação em algumas linhas.

Não houve registro de acidente por parte da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana STTU). Por volta das 20h, a situação no trânsito já era mais tranquila.



Por Alderi Dantas, 05/08/2020 às 23:13  - Com informações da InterTV - Fotos: Sérgio Henrique Santos/InterTV

04/08/2020

Ministério da Educação autoriza aulas a distância em escolas técnicas federais

O Ministério da Educação autorizou as instituições federais de ensino médio técnico e profissional a suspenderem as aulas presenciais ou substituí-las por atividades à distância até 31 de dezembro de 2020, em razão da pandemia de covid-19. A portaria de autorização foi publicada hoje (4) no Diário Oficial da União e entra em vigor amanhã (5).

Em julho, o Ministério da Educação já havia estendido a autorização de aulas a distância em instituições federais de ensino superior até 31 de dezembro de 2020. A medida também flexibilizava os estágios e as práticas em laboratório, que podem ser feitos a distância nesse período, exceto nos cursos da área de saúde.

Por Alderi Dantas, 4/08/2020 às 16:43 

03/08/2020

Covid-19: Taxa de transmissibilidade está alta em 77 municípios do RN

A situação da taxa de transmissibilidade (Rt) da Covid-19 no RN nesta segunda-feira, 03, apresenta um quadro desconfortável que pode levar ao aumento do número de casos da pandemia. Há 77 municípios em zona de perigo por apresentarem a taxa acima de 2. 

Os municípios polo regionais e de maior população apresentam maior gravidade. Em Pau dos Ferros e São Gonçalo a taxa é de 5, ou seja, uma pessoa contaminada transmite para outras 5 pessoas. Em Caicó, onde houve aumento na incidência, a taxa de transmissibilidade chega a 1.63. Em Santa Cruz, na região Trairi, a transmissibilidade é de 1.08. Em Mossoró, atinge 1.25 e em Natal é de 1, mas municípios vizinhos - além de São Gonçalo, já citado - como Parnamirim e Macaíba também têm taxas preocupantes - 1.21 e 1.24, respectivamente.

No Vale do Açu, Porto do Mangue e Alto do Rodrigues a taxa é 5. Isso representa que uma pessoa contaminada transmite para outras cinco pessoas. Quatro municípios na região têm taxa entre 1 e 2, representando grande risco: Jucurutu (1,81), Ipanguaçu (1,45), Assu (1,27) e Carnaubais (1,17) e, apenas, Itajá, Pendências e São Rafael têm taxa abaixo de 1.

A taxa é uma das maneiras de medir a propagação de uma epidemia e de projetar futuros cenários. A estatística mostra quantas pessoas um paciente infectado é capaz de contaminar. Pesquisadores afirmam que uma taxa acima de 1 ainda é preocupante: se uma pessoa ainda contamina pelo menos uma outra, o número de casos tende a crescer exponencialmente. 
 
Por Alderi Dantas, 3/08/2020 às 19:56 - Foto: ASSECOM/RN

02/08/2020

Carta ao Povo de Deus

Um grupo de 152 arcebispos e bispos da Igreja Católica assinaram uma carta com duras críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No documento, os religiosos citam que o governo federal demonstra "omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres", além de "incapacidade para enfrentar crises". 

Ao longo do texto, os bispos também afirmam que o desprezo pela educação, cultura, saúde estarrece. A secretaria de comunicação da CNBB informou que o documento "nada tem a ver" com a conferência." É de responsabilidade dos signatários".

Leia abaixo a íntegra do texto assinado por 152 bispos da CNBB intitulado de "Carta ao Povo de Deus":

Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo.

Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus. Ela tem consciência de que “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de que “a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa reposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33)” (Alegria do Evangelho, 180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e meta.

É neste horizonte que nos posicionamos frente à realidade atual do Brasil. Não temos interesses político-partidários, econômicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor.

O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma “tempestade perfeita” que, dolorosamente, precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança.

Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso País à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença.

É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se, claramente, em relação a esse cenário. As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro. Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum, ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra. “Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós” (Papa Francisco, Carta ao Presidente da Colômbia por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2020).

Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo. É verdade que o Brasil necessita de medidas e reformas sérias, mas não como as que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz social. É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população.

O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma “economia que mata” (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população, e das leis do trânsito e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais.

O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos ministros da educação e do meio ambiente e do secretário da cultura; no desconhecimento e depreciação de processos pedagógicos e de importantes pensadores do Brasil; na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa; na desqualificação das relações diplomáticas com vários países; na indiferença pelo fato de o Brasil ocupar um dos primeiros lugares em número de infectados e mortos pela pandemia sem, sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde; na desnecessária tensão com os outros entes da República na coordenação do enfrentamento da pandemia; na falta de sensibilidade para com os familiares dos mortos pelo novo coronavírus e pelos profissionais da saúde, que estão adoecendo nos esforços para salvar vidas.

No plano econômico, o ministro da economia desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País, privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem. A recessão que nos assombra pode fazer o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros. Há uma brutal descontinuidade da destinação de recursos para as políticas públicas no campo da alimentação, educação, moradia e geração de renda.

Fechando os olhos aos apelos de entidades nacionais e internacionais, o Governo Federal demonstra omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres e vulneráveis da sociedade, quais sejam: as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, as populações das periferias urbanas, dos cortiços e o povo que vive nas ruas, aos milhares, em todo o Brasil. Estes são os mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus e, lamentavelmente, não vislumbram medida efetiva que os levem a ter esperança de superar as crises sanitária e econômica que lhes são impostas de forma cruel. O Presidente da República, há poucos dias, no Plano Emergencial para Enfrentamento à COVID-19, aprovado no legislativo federal, sob o argumento de não haver previsão orçamentária, dentre outros pontos, vetou o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais (Cf. Presidência da CNBB, Carta Aberta ao Congresso Nacional, 13/07/2020).

Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes. Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário. Como não ficarmos indignados diante do uso do nome de Deus e de sua Santa Palavra, misturados a falas e posturas preconceituosas, que incitam ao ódio, ao invés de pregar o amor, para legitimar práticas que não condizem com o Reino de Deus e sua justiça?

O momento é de unidade no respeito à pluralidade! Por isso, propomos um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos. Estamos comprometidos com o recente “Pacto pela vida e pelo Brasil”, da CNBB e entidades da sociedade civil brasileira, e em sintonia com o Papa Francisco, que convoca a humanidade para pensar um novo “Pacto Educativo Global” e a nova “Economia de Francisco e Clara”, bem como, unimo-nos aos movimentos eclesiais e populares que buscam novas e urgentes alternativas para o Brasil.

Neste tempo da pandemia que nos obriga ao distanciamento social e nos ensina um “novo normal”, estamos redescobrindo nossas casas e famílias como nossa Igreja doméstica, um espaço do encontro com Deus e com os irmãos e irmãs. É sobretudo nesse ambiente que deve brilhar a luz do Evangelho que nos faz compreender que este tempo não é para a indiferença, para egoísmos, para divisões nem para o esquecimento (cf. Papa Francisco, Mensagem Urbi et Orbi, 12/4/20).

Despertemo-nos, portanto, do sono que nos imobiliza e nos faz meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos assolam. Com o apóstolo São Paulo, alertamos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12).

O Senhor vos abençoe e vos guarde. Ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós.
O Senhor volte para vós o seu olhar e vos dê a sua paz! (Nm 6,24-26)

Postado em 02/08/2020 às 15:00