22/08/2021

Jovens, não desistam da política partidária e institucional

Por Esther SolanoDoutora em Ciências Sociais


Estou começando uma grande pesquisa com jovens para entender como eles se relacionam com a democracia e com a política. Entrevisto jovens brasileiros e, durante mais de duas horas, falo com eles sobre a vida, sobre o futuro, sobre o País, sobre o que pensam e sentem do contexto brasileiro. Até agora tenho conversado com jovens ótimos, engajados em causas ambientais, que com veemência se declaram feministas ou antirracistas, jovens sensíveis com as desigualdades, empáticos, conscientes, porém… – eu detesto esses poréns que minam as nossas esperanças – eles também nos apresentam um lado cinza, que nos deixa cabisbaixos, quando esperávamos sair otimistas com o raciocínio exposto.
 
O porém, neste caso, é que esses jovens engajados e conscientes sentem uma distância emocional de anos-luz da política partidária e institucional. Segundo eles, essa política é desonesta, superficial, desleal, charlatã, corrupta. É um erro de percepção meu, talvez uma obsessão, ou vocês também observam o lastro pegajoso do lavajatismo em todos os cantos da vida? Os políticos são estafadores, os partidos são obscurantistas hierárquicos demais, inflexíveis demais, pétreos demais, envelhecidos demais, dizem eles. A política institucional não fala ao jovem, não tem espaço para este, não tem espaço para a abertura, para a mudança, para o diferente, sentem eles. Confesso que entendo bem o que eles querem dizer, e eu mesma sinto com frequência grande rejeição a uma lógica partidária que parece privilegiar o passado ao futuro, ou o “eu “nós”, que não consegue acompanhar o ritmo da vida. Mas é a conclusão desses jovens o que me assusta e me entristece: se as políticas partidária e governamental estão longe demais, então elas não valem a pena.

Em vez de tentar tomar de assalto os partidos, colonizar os Parlamentos, exigir o que é dos jovens por direito, meus entrevistados se retraem à vida na esfera privada, à luta por causas nobres, mas que se encontram fora das instituições. Procuram a política fora dos partidos, fora das esferas de representação tradicional. Não acreditam nelas, então fogem, levando com eles o ar fresco, as ideias, a sensibilidade, a inteligência e sobretudo, o futuro e as possibilidades de mudança. A cada entrevista, entristeço-me um pouco mais. Fico triste porque escuto, encantada, uma juventude que me orgulha e que é uma versão melhorada de Brasil, mas que cai naquele odioso papo do “não sou nem de esquerda nem de direita”.

A vocês, jovens, escrevo hoje. Por favor, não desistam dos partidos, não desistam das Câmaras de Vereadores, das Assembleias Legislativas. Filiem-se, candidatem-se. Há jovens como vocês que estão lutando dentro das instituições para mudar as coisas. Não os abandonem, não deixem que eles sozinhos carreguem com a responsabilidade de mudar toda uma lógica política podre. O Brasil precisa de sua juventude.

Sim, o País precisa de vocês postando, nas redes, mensagens feministas, participando de tuitaço ou manifestação pela descriminalização da maconha, compartilhando hashtags e lutando em associações de bairro contra o genocídio dos jovens negros periféricos, mas também precisa de sua participação nos partidos, nos cargos eletivos, na luta contra este governo infernal e para evitar outro governo infernal. O Brasil precisa de seu sorriso, de sua capacidade, de sua força presentes em Brasília, arejando-a, em meio a política que vocês chamam de “a de sempre”.

Jovens, por favor, não caiam no papo-furado de que todos os políticos são ruins, iguais e corruptos, muito menos na lábia de quem estufa o peito para dizer: “Eu não sou político, sou gestor”. Não deixem que o decidam por vocês os rumos de suas vidas nem a de seu País. Não deixem que “os mesmos políticos sempre” roubem o seu futuro. Não desmoronem, não se desencorajem de mudar o que parece impossível. Não é impossível, acreditem. Aliás, os impossíveis sempre foram os grandes inspiradores da humanidade. Transformá-los em possíveis é a nossa mais nobre tarefa.

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Postado em 22/08/2021 às 21:00 - Artigo originalmente publicado  na edição 1165 de Carta Capital

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